Vestígios de ocupações humanas pré-históricas no Vale do Sabugi são conhecidos desde o início do século. O clássico livro do naturalista Luciano Jacques de Moraes, Inscrições Rupestres no Brasil, já dá conta das gravuras que ocorrem no sítio Pedra Lavrada, no município de São José do Sabugi - PB, cerca de 20 Km a N-NW das primeiras itaquatiaras citadas neste trabalho, e com as quais guardam muitas semelhanças.
Ao longo das últimas décadas, alguns desses sítios arqueológicos com gravuras e pinturas rupestres têm sido visitados e até mesmo citados na literatura especializada (a exemplo de Almeida, 1979), porém não existem descrições detalhadas nem foram realizados estudos sistemáticos naqueles locais.
Como contribuição ao cadastramento das ocorrências de itaquatiaras na região, é apresentada, a seguir, uma descrição sumária dos sítios visitados apenas em São Mamede-PB. Há, ainda, outos locais para serem visitados, explorados e estudados, só que, em função da exiguidade do tempo, apenas alguns sítios que ficam mais próximos à sede da cidade, portanto, de acesso mais fácil é que serão apresentados a seguir. As descrições seguintes são de autoria de João Marinho de Morais Neto, registradas no livro Contribuição ao Cadastramento das Itaquatiaras do Vale do Sabugi, na fronteira da Paraíba (1994).
Sítio Tapera
Coordenadas Geogrãficas: 06°50'00" Se 37°08'40" W.0.'" Folha Planimétrica: SB-24-Z-B-IV (Sena Negra do Norte-RN)
Proprietário: Francisco Juvanir Gomes de Oliveira.
O sítio citado por Almeida (1979), dista 20 Km pela estrada que liga aquela cidade ao município de lpueiras (PB-251 ), no vizinho Estado do Rio Grande do Norte. As gravuras- cerca de 30¬ocorrem num grande matacão de gnaisse cinza fino, na margem esquerda do Rio Sabugi, a poucos metros do chamado Poço da Tapera, reservatório que guarda grande quantidade de água, mesmo em épocas de seca prolongada.
As gravuras são nítidas, com seu baixo relevo bem polido. No painel principal, defronte para o nascente, predominam motivos geométricos bem preservados além de raros ponteados. Também ocorrem gravuras já mais erudidas nas paredes "laterais do afloramento e no interior de pequenas marmitas assoreadas, o que talvez possa permitir algum tipo de escavação.
As gravuras atualmente visitadas estão 50 cm mais expostas do que há 15 anos atrás, quando visitamos o local pela primeira vez. Isso indica a possibilidade de existirem mais gravuras sobre o leito atual do rio, mas há outros locais em que encontramos algumas gravuras já soterradas por terra mais elevada, terra essa que foi jogada pela força das águas, porque no local das inscrições passa um riacho.
Material lítico polido (principalmente machados, de diferentes formas e feitios), tem sido encontrado nas proximidades da itaquatiara. Pessoas do local também citam a existência de trempes de caboclos-brabos nas redondezas, numa alusão a possíveis fogareiros usados pelos antigos índios que habitavam a região. Não tivemos informações sobre a ocorrência de vestígíos de material cerâmico.
Sítio Trincheiras
Coordenadas Geográficas: 06°49'10" S e 37°06'50" W (serra) 06°48'45" S e 37°07'20" W (lagoa) Folha Planimétrica: SB-24-Z-IV (Serra Negra do Norte) Proprietário: Osmar de Medeiros Morais.
O acesso a esse sítio pode ser feito a partir da cidade de São Mamede, pela mesma estrada de acesso (PB 251) ao sítio anteriormente citado. A sede da fazenda fica 18 Km a norte daquela cidade, podendo o acesso ser feito por outra estrada secundária, que passa pela fazenda Brito ou pelo Monte.
Ocorrem dois pontos com gravuras nesse sítio. O principal fica na margem de uma lagoa, no sopé da Serra da Cozinha. A maioria das gravuras, que pode chegar a uma centena, tem um baixo relevo, pouco profundo, dificultando a sua definição. Aparentemente, a técnica usada para a gravação foi o picoteamento, uma vez que é possível identificar os pontos de percursão e quase não há polimento. Algumas gravuras estão incompletas, pela ação do descamamento natural. que afeta o augen-gnaisse onde ocorrem.
No painel principal, com 3,5mm x 0,70mm,ocorrem grafismo puros (cruzes, asteriscos, círculos, etc) e algumas formas sugerindo animais estilizados. Na face posterior do referido painel, ocorre a gravura mais significativa desse local. trata-se provavelmente de um zoomorfo representando um felino, inclusive com pegadas associadas. Coincidentemente, as serras que circundam esse sítio foram o último refúgio de onças nessa região, as quais ainda eram encontradas no local até a década de 40.
Outro ponto situa-se no topo de uma pequena serra, na estrada que liga Trincheiras à Tapera e o lajedo onde as gravuras ocorrem está situado num ponto onde se tem uma bela e estratégica visão
do vale. As gravuras estão quase que apagadas, devido a um intenso processo de esfoliação, embora ainda possam ser identificados tridígitos e outros grafismos semelhantes aos encontrados na itaquatiara da lagoa.
Sítio Tapuio e Rio Bonito
Coordenadas Geográficas: 06°50'10"S e 38°08'15" W
Folha Planimétrica: SB-24-Z-B~lV (Serra Negra do Norte) PropIietário: Miusa Candeia de Souto Dantas.
Este sítio, citado por Almeida (1979), situa-se no leito/margem do rio Sabugi, 2 km à montante do sítio Tapera. O acesso pode ser feito a partir da cidade de São Mamede, de onde dista 18 Km pela estrada São Mamede-Ipueiras (PB 251), via Poço do Brito.
As gravuras ocorrem num grande afloramento cinza azulado, com cerca de 150 metros de comprimento, e infelizmente vem sofrendo um intenso processo de descamação natural, o que tem contribuído para a destruição de centenas de gravuras encontradas no loca1, principalmente as do piso do lajedo.
Os painéis principais ficam na parede lateral NW do lajedo, e exibem petróglífos representando grafismos puros (círculos, tridígitos, cruzes, asteriscos, etc), além de formas mais elaboradas. Também são encontrados zoomorfos representando quelônios e lagartos, possíveis rostos de antropomorfos e uma magnífica gravura de mão humana. Há boas possibilidades de escavações nessa parte do lajOOo, uma vez que ocorre uma camada de solo soterrando as gavuras. Algumas incisões alfanuméricas também são encontradas ao longo do lajedo, mostrando um tipo de vandalismo que compromete a integridade dos registros rupestres. Vestígios de extração de pedras para a construção também estão sendo encontrados no local.
Sítio Poço do Brito
Coordenadas Geográficas: 06°51' lO"S e 37°0T20"W
Folha Planimétrica: SB-24-Z~B-IV (Serra negra do Norte) Proprietálio: Amir Gaudêncio.
As gravuras desse sítio ficam no leito do rio Sabugi, cerca de 3 km à montante do ponto anterior, num boqueirão largo que o rio Sabugi forma ao passar pelos quartzitos da Serra dos Cavalos. O acesso ao local é feito por uma estrada que liga São Mamede à propriedade Saco do Monte e à serra do Brito.
Ocorrem apenas cinco gravuras no local, nitidamente executadas por percussão. Os blocos de quatzitos onde ocorrem os grafismos ficam próximos ao Poço do Brito, que é uma cacimba natural no leito do rio Sabugi, acumulando água mesmo nos períodos em que há grandes estiagens. No local onde existem as gravuras não há condições para as escavações.
Vale salientar que, nesta área ao longo do rio Sabugi, ocorrem dispersos vários pontos com gravuras, estando descritos neste trabalho apenas os locais de maior concentração de petróglifos.
Sítio Pedra D'água
Coordenadas geográficas: 06°51'50"S e 37"'OS'30"W
Folha Planimétrica: SB-24-Z-B-IV (Serra negra do Norte) Proprietário: Herdeiros de João Eliseu de Medeiros.
Localiza-se na estrada São Mamede-São Nicolau, 10 Km a NNE da primeira., numa elevação próximo à entrada da antiga mina de scheelita da Malhadinha., no sopé da Serra da Mandioca.
O afloramento, de granito gnáissico, é de grandes proporções, ocupando uma área de aproximadamente meio hectare. Quase toda a totalidade do lajedo está coberta de.gravuras, já pouco nítidas devido a erosão, ou por terem sido executadas embaixo relevo e de pouca proximidade.
Onde a superficie do lajedo não foi esfoliada ou destruída, há uma incrível profusão de asteriscos, círculos inscritos e cruzes, tridígitos e outros grafismos puros; também ocorrem gravuras sugerindo antropomorfos.
Infelizmente, além do dano natural causados pejos agentes erosivos, este sítio está sofrendo um violento processo de destruição, uma vez que, no local, há vestígios recentes de extração de pedras para a construção civil, como blocos lapidados e empilhados, dezenas de blocos com gravuras quebradas, restos de pavios de dinamite e furos de martelete para colocação de explosivos.






