Seus aboios ainda ecoam nos currais, como nos tempos em que levantava de madrugada para a ordenha e chamava cada vaca pelo nome: Estrela, Laranjeira, Asa Branca, Amarelinha...Sem falar do touro Tupã e no boi Pintor, companheiro de muitos anos de jornada. Seus olhos marejaram no dia em que o vendeu para o abate e só o fez porque o mesmo estava velho demais para a lida.
Como se esquecer do gibão, da perneira e do chapéu-de-couro (seu traje preferido), do seu cavalo alazão (impecavelmente celado) e do cachorro Vigilante, fiel escudeiro nas campeadas?
Como não falar das festas de vaquejada que tanto gostava, das cantorias e dos repentes, nos quais seu nome era sempre mencionado?
Como olhar para a varanda da casa e não vê-lo na rede ou na cadeira de balanço, que ele chamava de preguiçosa?
Como chegar na sala de jantar e não vê-lo à cabeceira da mesa, degustando carne-de-sol com inhame, tapioca, pamonha ou cuscuz?
Nada lhe dava mais júbilo que a chuva, os açudes transbordando, anunciando a fartura, a colheita do algodão (seu ouro branco), do milho, do feijão...
Nada lhe fascinava mais que o gado no pasto verdejante.
Nenhum perfume lhe agradava mais que o cheiro da terra, do mato e do gado.
Nada se comparava à sua alegria ao ver reunidos os filhos, netos e bisnetos.
Poeta nenhum descreverá o seu amor por Maria, a eterna namorada, (cujo nome foi a última palavra a balbuciar) ou escreverá o poema que seus olhos recitavam quando a viam.
Nada preenche o vazio que ele deixou, a não ser a certeza de que está num lugar muito especial, onde não há mais lágrimas, nem clamor, nem dor. Um lugar que Deus, de bom grado, lhe reservou por galardão.
Escrito por: Maria do Socorro (Família Siriema)





